terça-feira, 9 de setembro de 2014

Medo da morte súbita alimenta indústria de sensores para bebês


Imagem: Divulgação
Câmera com zoom e visão em infravermelho, microfones que captam som ambiente e monitores de movimento na cama. Poderia ser um estúdio de reality show, mas é um quarto de bebê equipado com as últimas novidades da indústria do monitoramento infantil.

O lançamento mais recente vem dos EUA: a tornozeleira Sproutling Baby (US$ 299 ou R$ 677) dá a frequência cardíaca, mede a temperatura, diz se a criança está dormindo e se está fazendo barulho. O "status" do bebê é exibido 24 horas no celular dos pais, em um aplicativo.


Uma semana depois do lançamento, no mês passado, os estoques da pré-venda do produto se esgotaram. E, até ontem, 39% do segundo lote, para março de 2015, já estava reservado.

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O sucesso desse e de outros produtos do tipo não é mistério: eles vendem a sensação de segurança às mães que temem a síndrome da morte súbita infantil, responsável por uma morte a cada 2.000 bebês nascidos vivos, segundo Gustavo Antônio Moreira, pediatra e pesquisador do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo.

De acordo com Moreira, a síndrome é mais comum entre bebês de até seis meses, mas há risco até a criança completar um ano.

Em países desenvolvidos, essa é a principal causa de morte no primeiro ano de vida –no Brasil, ainda são as doenças infecciosas, como diarreia e pneumonia.

O que torna a síndrome mais assustadora é a imprevisibilidade. "Um bebê saudável, rígido, que está se desenvolvendo bem morre de repente sem causa determinada", diz Lânia Romanzin Xavier, especialista em cardiologia infantil e membro da Sobrac (Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas).

Sabendo do risco, a médica Renata Torres Ferreira, 36, comprou um prendedor de fralda com monitor de respiração para sua filha, Valentina, de três meses. Se a menina ficar sem respirar por 15 segundos, o aparelho vibra e, se ela continuar sem se mexer, ele soa um alarme.

"Fiquei em dúvida se comprava ou não porque parece um pouco de loucura. Decidi comprar quando uma paciente me contou que perdeu um filho por morte súbita. Poderia ser um sinal divino..."

Valentina não se encaixa em nenhum dos fatores que aumentam o risco de ter a síndrome: exposição à fumaça do cigarro (durante a gravidez ou depois do parto), prematuridade e histórico familiar de morte súbita. Além disso, ela sempre dorme de barriga para cima, uma das principais medidas para evitar o mal, segundo os médicos.

Mesmo assim, Renata ficou com medo. "Cabeça de grávida pensa em tudo e mais um pouco. Como sei que existe o risco, não me perdoaria se acontecesse o pior."

Até agora, o aparelhinho nunca apitou. E, no último mês, ela tem perdido o medo e deixado a menina sem o monitor –mas continua de olho da babá eletrônica.

FALSA SEGURANÇA

"As mães querem comprar segurança e esses monitores parecem milagrosos", afirma a médica Lânia Xavier. Mas, para ela, é uma falsa sensação de segurança.

"Estudos científicos mostram que os aparelhos usados em casa não diminuem o risco de morte súbita. Às vezes a síndrome leva à queda de oxigênio e, quando o monitor apita, as chances de recuperação já são pequenas."

Há casos mais simples, em que só um estímulo faz o bebê voltar a respirar. Na maioria das vezes, porém, mesmo se houver chance de recuperação, os pais têm que saber dar os primeiros socorros.

"Não adianta comprar um monitor de respiração se você não souber reanimar a criança", diz Nelson Horigoshi, intensivista pediátrico do Hospital Infantil Sabará.

Segundo Magda Lahorgue Nunes, neurologista infantil e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, os monitores não devem ser usados em nenhum caso, assim como recomenda a Academia Americana de Pediatria.

De acordo com ela, as medidas preventivas são muito mais eficazes. As principais são evitar o tabagismo, não dormir na mesma cama do bebê, deixar o berço livre de objetos –como fraldas, bichos de pelúcia e almofadas– e pôr a criança para dormir de barriga para cima.

"O monitoramento só deve acontecer sob indicação médica", diz a pediatra e psicanalista Eduardina Telles Tenenbojm.

Para ela, além de desnecessária, a vigilância prejudica a relação mãe-bebê. O mesmo pensa a psicóloga Renata Soifer Kraiser. "Já conheci mães que não dormiam porque ficavam olhando a babá eletrônica. Essa neurose não é saudável nem para o bebê nem para a mãe."

Segundo ela, em alguns casos, os monitores podem ajudar a tranquilizar. "Se for assim, ótimo. Se for para alimentar uma paranoia, não."

Juliana Vines
Folha de S. Paulo
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