sábado, 17 de maio de 2014

Adolescente sem atendimento médico morre implorando por ajuda


Fabiana Zafra, mãe de Gabriela. Imagem: Silva Junior / Especial
Gabriela Zafra já estava morta quando passou pelo primeiro exame de sangue. A adolescente de 16 anos morreu com suspeita de meningite na madrugada desta sexta-feira (16), depois de peregrinar pelas unidades de saúde de Ribeirão Preto. Procurou ajuda cinco vezes em um único dia. Só na UPA (Unidade de Pronto Atendimento), foram três tentativas frustradas.


Torcicolo, virose, coisa que passa, repetiram os médicos. Nos braços do irmão, a menina pediu ajuda pela última vez. “Ela estava morrendo. Chorava, dizia que estava doendo o peito, que não sentia as pernas”, relatou Gustavo da Silva, 19, segurando o choro para amparar a mãe.

No velório, Fabiana ainda se referia à filha no presente. “Ela é maravilhosa. Não consigo acreditar que minha filha morreu. Não fizeram nada por ela.”

Gabriela começou a sentir dores de cabeça na quarta-feira e tomou um analgésico. Na quinta, logo ao chegar ao trabalho, percebeu que estava pior e voltou para casa. “Ela dizia que doía muito a nuca e o pescoço”, conta a mãe.

Às 9h30, ela levou a filha à UBDS do Quintino Facci. A adolescente recebeu diagnóstico de torcicolo, mas a mãe não se convenceu e foi à UBS do Ribeirão Verde. Os médicos disseram que poderia ser caxumba e orientaram a procurar a UPA para exames.

As duas chegaram na UPA por volta das 12h45. “Ela ficou sentadinha esperando, chorando de dor. Atenderam só às 16h45!”, se inconforma Fabiana. A médica garantiu: “Não é caxumba”. A mãe pediu um exame, mas não houve conversa. “Ela me respondeu que não precisava e ainda falou: ‘A aparência da sua filha está ótima’”. A menina saiu da unidade com receita de relaxante muscular.

Mãe e filha voltaram para casa, mas Gabi começou a vomitar. Novamente, correram para a UPA. “Ela chorava de dor, chegou a deitar no chão, porque eles não atendiam.”

A mãe nunca vai esquecer o pedido de ajuda da filha. “Pelo amor de Deus, me ajuda a passar pelo médico”, ela implorava. Fabiana precisou entrar nos consultórios, suplicando, para conseguir a consulta.

De novo, pediu exames. “Eles falaram que era virose, aplicaram injeção, e mandaram pra casa”.

Ao chegar em casa, Gabi desmaiou. “Ela se debatia, estava gelada, morrendo.”

O irmão levou Gabriela no colo enquanto a mãe dirigia o carro de volta à UPA.

“Ela morreu nos meus braços. Chegou na unidade quase sem respirar.” Nesse momento, o atendimento foi exemplar. “Pegaram o braço para tirar sangue, tentaram reanimar. Não teve jeito.” Gabriela teve duas paradas cardíacas e morreu à 1h40. Demoraram demais”, a mãe vai lamentar por toda a vida.

Gabi cultivava sonhos

Gustavo da Silva ainda não sabe como vai dormir sem a presença da irmã-companheira. “A gente dividiu quarto a vida inteira. Agora, a cama dela vai estar vazia.” Gabriela era a filha do meio, entre três irmãos.

A família veio de Mirassol para Ribeirão há seis anos, “para um futuro melhor”, nas palavras da mãe.

A adolescente trabalhava como auxiliar de compras em uma grande concessionária e cultivava uma lista de sonhos: guardava dinheiro para tirar carta e comprar uma moto quando fizesse 18 e tinha como grande objetivo a faculdade. “Ela já pensava em Biologia e eu dizia: ‘Com fé você consegue, filha. É batalhadora’”, conta a mãe.

Fabiana perdeu a confiança na Medicina e no ser humano. “Quando a gente entrega um filho para um médico, confia nele. Pensa que ele vai cuidar do filho da gente. Hoje eu deixei de confiar. Até cachorro a gente cuida com amor. Eles [médicos] tratam o ser humano pior que cachorro. Na minha opinião de mãe, os médicos precisam se dedicar à profissão. Eu nunca mais vou ver minha filha.”

‘Houve má vontade dos médicos’

“É fácil resumir o quadro dessa jovem: houve mau atendimento do início ao fim.” O infectologista Renato Ferneda explica a morte de Gabriela em poucas palavras. “Torcicolo é simples. É dor muscular. Não está associado a outros sintomas. Houve má vontade dos médicos.”

O médico diz que a resolução da OMS (Organização Mundial de Saúde) em relação à suspeita de meningite - uma doença de notificação compulsória - é clara. “Na primeira suspeita, é preciso colher material para exames. O sintoma mais básico da meningite é a rigidez da nuca.”

Ferneda ainda esclarece que, após colher o lícor - material usado no exame -, os médicos devem aplicar antibióticos, como maneira de prevenir o agravamento da doença. “A OMS esclarece que se esse procedimento for feito nas primeiras três horas de manifestação, há grande diminuição da mortalidade.”

Pelos sintomas relatados, ele acredita na meningite como causa da morte da adolescente. “É uma doença de evolução rápida.”

Jornal A Cidade
Editado por Gazeta Social
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