domingo, 29 de dezembro de 2013

Maratonista com câncer terminal leva filha às provas


Imagem: Randy Edwards/The Enterprise
O maratonista Iram Leon, 33, recebeu o diagnóstico de câncer no cérebro há três anos. Depois de uma cirurgia, ele retomou as provas levando a filha, Kiana, 7, que o acompanha num carrinho de bebê. Nascido em Chihuahua, no México, e morador do Texas, nos EUA, Leon trabalhava com jovens infratores e hoje está desempregado. Os organizadores de uma corrida vencida por ele e pela filha em Austin iniciaram um fundo para pagar os estudos da menina e é possível enviar doações em dinheiro à dupla. (Saiba mais no site donationto.com/Sports-Society-Fund-for-Iram-Leon).

Conheça a história de Iram Leon: 

Sou pai solteiro e tenho câncer terminal no cérebro; quero deixar para minha filha, Kiana (de sete anos), o máximo de boas memórias.

Tudo começou quando eu estava com viagem marcada para o Brasil. Tive de cancelar para fazer o tratamento e, depois, a cirurgia.

Estou melhor, mas ainda vomito em algumas corridas, por causa da medicação contra o câncer. Numa delas, tive convulsões, acordei na ambulância. Isso nunca aconteceu em corridas com minha filha; com ela, é pura terapia, ficar com ela está acima de todas as coisas para mim.

A primeira vez que a levei para correr foi para tentar fazê-la dormir. Saímos pelas ruas de Austin, Texas, onde moro, mas não deu certo. Quando voltamos, ela estava ainda mais acesa no carrinho.

Foi então que descobri que ela gostava de correr, e passamos a fazer isso para ficarmos juntos mais tempo.

Descobri a doença depois de uma convulsão numa festa de aniversário em 2010, quando tinha 30 anos. Acordei numa cama de hospital.

Passei por exames e os médicos descobriram que eu tinha algo errado na cabeça. Como era sexta, não dava para fazer logo a biópsia e tive que esperar até segunda.

Não sou um cara de ficar sentado quieto. Meus amigos vieram, jogamos pôquer a noite toda de sábado. Na véspera da cirurgia, consegui autorização e saí para correr: fiz um treino de 13 km, mas fui bem lento, com o braço dolorido por causa das injeções e o corpo machucado --ter convulsões não faz ninguém correr melhor.

Fizeram a biópsia e uma sequência de exames. Os resultados demoraram três semanas: câncer no lobo temporal esquerdo. Os médicos queriam fazer logo a cirurgia, mas eu vinha treinando tão bem para uma maratona que deixaram que eu fizesse a corrida antes da operação.

Acabou sendo meu melhor resultado: completei a prova em 3h07min35, o meu melhor tempo até hoje, e consegui me qualificar para a maratona de Boston.

O tumor precisava ser retirado, mas não poderia sair inteiro, pois isso acabaria por afetar minha memória e minha capacidade de falar.

Mesmo assim, tive sequelas. Tenho problemas de orientação espacial e às vezes esqueço as coisas. Por isso perdi meu emprego: trabalhava como agente de liberdade condicional de menores infratores. Também me separei depois da cirurgia.

Às vezes, minha mulher desaparecia no meio da noite. Ela acabou pedindo o divórcio, mas não pediu a guarda de nossa filha, Kiana. Assim eu me tornei pai solteiro.

Depois da cirurgia, levou um tempo para que eu voltasse a correr. Os médicos até já tinham me liberado para fazer exercícios, mas eu estava muito deprimido para sair. Finalmente, consegui fazer uns três quilômetros, mas foi muito dolorido.

Os amigos queriam ajudar, diziam que eu precisava tomar um porre, encontrar uma namorada, fumar maconha, rezar. Até aceitei algumas sugestões e fiz muita coisa que talvez não deixasse minha mãe orgulhosa, mas tudo começou a se ajeitar quando recomecei a correr.

EM DUPLA

Tinha uma prova de 5 km em Austin para arrecadar fundos para pesquisas contra o câncer. Foi a primeira corrida que venci desde os tempos de colégio... Vi que não era ainda hora de pendurar os tênis de corrida.

Até nisso Kiana me ajudou. Foi só depois de passar pela cirurgia e virar pai solteiro que passamos a fazer tudo juntos; ela já tinha cinco anos. Nossa primeira prova foi no Dia de Ação de Graças.

Ela adorou e eu também. Corri com ela no carrinho de três rodas e nos saímos muito bem: no ano passado, terminamos nossa primeira meia maratona em segundo lugar. Em março, ganhamos uma maratona de verdade, completa. Empurrando Kiana no carrinho, fui o campeão --na verdade, ela cruzou a linha antes de mim--, completando em 3h07min36.

Ela também gosta de fazer exercício: no mês passado, participou de sua primeira Spartan Race (corrida de obstáculos). Já fiz essa prova várias vezes, mas não dá para participar empurrando o carrinho. Kiana competiu na corrida para crianças --não gostou muito da sujeira e da lama, mas curtiu as escaladas.

Quero continuar correndo com ela. O que importa não é a distância, mas o tempo em que passamos juntos.

Hoje minha situação é estável, o tumor não tem crescido. É mortal em grande parte dos casos, mas há sobreviventes. Não sei se correr ajuda, mas algumas pesquisas dizem que sim.

Cada vez que tenho uma consulta médica, pergunto ao médico se posso continuar correndo. Até agora, a resposta sempre foi positiva. Daqui a alguns dias, vou começar uma nova bateria de testes. Espero que tudo saia bem.

Rodolfo Lucena
Folha de S. Paulo
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